segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Esperar o inesperado

Sábado à noite recebo a seguinte mensagem:

"Amanhã de manhã queres ir correr? Vou de comboio até Belém, vamos até ao Cais do Sodré. Traz o passe para depois voltares para trás."

No meio de tanta inércia, mantas e sofá lá disse "que sim".
Eram 8.20 de sábado e o despertador tocou. Ainda demorei meia hora a levantar-me para ir fazer uma mega panqueca com banana, que saiu completamente despedaçada mas boa.
Eram 9.30 e estava pronta para sair. Nessa mesma altura recebi mensagem a dizer que havia atraso e voltei a enrolar-me na manta e no sofá.
10.15 e estava a descer rumo a Belém. 
Pouco depois das 10.30 já estávamos a correr lentamente, com conversa disto e daquilo, que a minha amiga gosta de correr mas é para conversar. Então, claro, vamos devagar.
Chegamos ao Cais do Sodré (6km) e eu nem dor nas pernas tinha. Sentia-me bem. Corremos até à Ribeira das Naus, mas ela ficou com dor de burro e então caminhamos até à Praça do Comércio.
Dei-lhe as chaves de casa e o passe, que tinha guardado e disse:

"Olha, eu ainda estou bem (há que aproveitar quando estou bem a correr) por isso vou mais um bocadinho para trás a correr, tipo 2km e depois apanho autocarro."

E fui.
Um pouco mais rápido do que o que íamos, mas nada de mais. Senti a dor atrás do joelho direito que me tem chateado. Pensei no que o treinador me disse "levanta mais os joelhos, mesmo que te pareça estranho de inicio", e tentei. Passado uns minutos a dor tinha desaparecido. Acho que tenho de fortalecer estes músculos traseiros do meu joelho...

Estava mesmo a sentir-me bem.
Ao tempo que eu não me sentia bem!
Ao tempo que não estava sozinha, com a mente descansada e livre. 
Ia sorrindo aos corredores e ciclistas que iam passando (a gente arregala um bocado as vistas quando vai correr... não é?) e fui correndo... correndo... Já tinham passado 2km e eu estava bem.
Continuei.
Pensei "agora corro até ao pilar da ponte 25 de abril". 
Mas cheguei ao pilar e estava bem! Pelas minhas contas já devia estar por volta dos 10km. Passou-me pela cabeça que se calhar era o dia ideal para passar os 10km. 
Eu nunca tinha corrido mais que 10km.
"11km era bom - pensei - mas já que estou aqui corro até ao ponto inicial."

Quando cheguei à Estação Fluvial de Belém olhei para os kms. 11.5km... E claro, por 500m não ia deixar os 12km fugirem.
Foi só mais um bocadinho.
E eu estava bem.


Nunca tinha corrido tanto tempo seguido, nunca tinha corrido sem que isso fosse um sofrimento mental, em que luto contra a vontade de parar. Ir com companhia ajudou. Se estivesse sozinha muito provavelmente não teria ido, ou então ia e fazia 5km...
Mais 20min. de caminhada e estava em casa, pronta para alongar, tomar banho e almoçar.



A mente tem destas coisas, quando menos se espera chegamos mais longe. 
Bloqueios vão e vem, mas o nosso bem estar depende de nós. 
Ainda estou numa fase esquisita de transição, entre o prazer de estar sozinha e o medo de me tornar uma pessoa solitária.


Mas, para já, sinto-me bem.

4 comentários:

м♥ disse...

Os entraves mentais são sempre os piores. O corpo aguenta (quase) tudo, a cabeça é sempre a primeira a ceder. Por isso fizeste muito bem em continuar e superar-te.

Quanto ao medo de te tornares solitária, não vejo nenhum problema nisso :) Gostarmos da nossa própria companhia tem que vir primeiro. Aprender a estarmos sozinhos é a lição mais importante. O "problema" é que, depois disso, somos muito mais exigentes acerca da forma como passamos o nosso tempo e a quem dedicamos a nossa companhia :p Tenho a certeza que te estás a safar bem! You go girl!

N. disse...

Confirmo: adorei o teu post! Parabéns pela distância e pela força que tiveste para continuar. Assim é que é! :)

Duvido muito que te venhas a tornar numa pessoa solitária. Quase que meto as minhas mãos no fogo!

Beijinhos!

Dona de Casa disse...

Muito bom, essa distância!! E às vezes precisamos da nossa companhia, faz bem...

a n a a r q u i a disse...

é uma sensação TÃO fantástica essa de "se der mais um passo vai ser o mais longe que já corri". aí você dá mais um e mais um... é quando a gente percebe que correr tem mais a ver com a cabeça do que com as pernas. parabéns pela maior corrida já feita! tenho certeza que muito em breve ela vai ser superada ;)