domingo, 23 de fevereiro de 2014

Ser avô

Ser avô é ser pai duas vezes.
Foi isto que o meu avô me ensinou há muito tempo e eu só posso concordar.


Quando nasci, já os meus pais viviam com os meus avós. Quase tudo o que recordo da minha infância tem que ver com os meus avós. Há uns dias, a minha irmã dizia-me, do outro lado do mundo: "O avô era a pessoa que eu mais admirava e seguia como modelo. Foi ele que me ensinou tudo" - e eu, não posso estar mais de acordo.

Lembro-me de ser pequena e ser o avô a pentear e secar o meu cabelo, sempre que tomava banho. Fazia-me a risca ao lado, muito certinha, com um pente verde. Era no avô que me enrolava todas as noites no sofá, com os pés debaixo das pernas dele e as mãos à volta do seus braços. Aquecia-me assim. Era no cabelo cinzento e macio do avô que eu adorava fazer cristas e ele não se chateava nada. 
O avô ensinou-nos a falar bem, mas comigo teve mais trabalho. A minha irmã, antes de entrar na escola já sabia ler palavras. Também já sabia fazer diálogos em inglês, aquilo do what's your name e por aí adiante.

Quando já andávamos na preparatória, foi o avô que nos ensinou as capitais dos países e a sua história. Estes eram os pontos fortes dele. Felizmente alguém lhe herdou esse gosto. Não fui eu, mas é pena.
O avô tinha sempre respostas. Não me lembro de alguma vez me ter dito que não sabia alguma coisa. Se não sabia, ia procurar nas dezenas de livros que tinha. Era a ele que perguntávamos sempre alguma coisa sobre saúde. Foi enfermeiro e os anos de experiência já eram muitos. Sabia sempre a causa e o tratamento a fazer. Era comum ouvir um "faz de conta que é em mim", quando dizia que me doía alguma coisa, ou um "incha, desincha e passa", quando não havia nada a fazer.

O avô tinha sempre um ditado ou uma expressão para todas as situações. Muitas delas que eu continuo a usar. É uma maneira de continuar a viver com ele.

O avô sempre se preocupou com o facto de eu ser um pisco e comer pouco. Nos dias de hoje, que já não sou pisco, ainda me perguntava ao telefone se andava a alimentar-me bem ou se não passava frio. Preocupação de avô. Dizia-me sempre: "não andes de noite, que está muito frio". E eu nunca lhe contava se estava constipada ou com gripe, só para não o preocupar.

Era conhecido por ser um durão, não tivesse ele sido polícia, mas na verdade toda a gente gostava dele. Tinha um bom feitio invejável. Nunca deu trabalho aos outros e estava sempre pronto a ensinar e ajudar. Os meus amigos gostavam dele. Tinha sempre histórias para contar a toda a gente. Histórias de quem viveu durante a 2ª guerra mundial, de quem viveu em Moçambique, em Lisboa, em Guimarães, em Évora, antes de regressar à cidade natal. Por tudo isto, o meu avô deixou espalhados muitos amigos. Amigos a sério com quem conseguiu manter contacto até hoje. E sem internet. 

Era muito fácil gostar do meu avô.
Agora conto com ele para olhar por nós e nos continuar a guiar, onde quer que esteja.

Obrigada avô, foste o melhor do (meu) mundo.

16 comentários:

Miss Memories disse...

Força, querida! Infelizmente sei como custa... Esperemos que esteja num lugar melhor e em paz! Beijinho grande!

Ssol disse...

Não escreveria melhor. Vamos ter muitas saudades:(

Cris disse...

Que bonito texto! Nitidamente tens imensas boas memórias com ele, nunca as percas!
beijinho grande para a tua família e para ti

Doyle disse...

Tão bonitas estas tuas palavras...
Um beijinho grande para ti, e um pensamento com muito carinho para os nossos avós, que apesar de cá não estarem, nos protegem todos os dias.

t disse...

que homenagem linda! muita força e lembra todas estas boas recordações
***

agatxigibaba disse...

Muito bom de ler. Nunca sei bem o que dizer nestes casos mas se puder ajudar em algo, avisa.

Joana Banana disse...

Belissima descrição, demonstraste muito amor neste texto. Muita força p a familia toda :) Que as lembranças boas permaneçam p sempre.
Um enorme beijo para ti*

Jo disse...

E que bonitas recordações :) Um grande beijinho!!

Alexas disse...

Bonito texto. Muita ternura e amor nas palavras. Forcinha e Um grande beijinho para ti.

Marta disse...

Este é o tipo de amor que mais admiro. Sinto-o pela minha avó paterna, a minha mãe a dobrar. É tudo para mim. Tem 89 anos e o meu maior desejo é que continue perto de mim, como tem estado sempre aos longo dos meus 37 anos.

Catarina F disse...

que lindas palavras, muita força :) beijinho*

Inspired disse...

:( De facto era mesmo uma questão de tempo! :(
Ficam as boas memórias!...
Um beijinho muito, muito grande para ti!
Continua a sorrir!

Sónia TM disse...

Belas palavras

Sónia
Taras e Manias

Moa disse...

Beijinho grande...

b. disse...

L, sente-te abraçada e muito querida por mim.
Em breve receberás noticias minhas, diferentes talvez daquelas que estavas á espera.
Um beijinho enorme minha querida

Coquinhas disse...

Que texto lindo :') Beijinho L.